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domingo, 7 de fevereiro de 2010

O amor não acaba - Marcelo Rubens Paiva


O amor acaba? O cara disse. Numa esquina, num domingo, depois do teatro e do silêncio, na insônia, nas sorveterias, no elevador, como se lhe faltasse energia. Tenho dúvidas. Ele não volta? Não deixa rastro? Não renasce? Volta.



Na esquina em que se beijaram uma vez, lá está ele, na sombra perdida pela luz, na poeira suspensa, na revolta da memória inconformada. Uma lembrança. Na solidão do domingo, lá vem ele, volta, com lamento, um quase desespero, e penso nos planos perdidos, que vida sem sentido... No teatro, no palco de história de amor, no cinema, na tela com beijos e risos, na TV, que inveja... Já tive um amor igual.


Onde ele se escondeu? E, pior, por que? Na insônia o amor cai como uma tonelada de lápide, e se eu tivesse feito diferente, se eu tivesse sido paciente, e se eu tivesse insistido, suportado, indicado, transformado, reagido, escutado, abraçado? Seu choro, no meu ombro, foi tão recusado. Na sorveteria, ele volta, o amor em lembrança. Porque aquele sabor era o preferido dela, aquela cobertura era a preferida dela, aquela sorveteria era a preferida dela, assim como aquela esquina, aquele bairro, aquele clima, aquela lua, aquele mês, aquela temperatura, aquela raça de cachorro atravessando a rua, aquele programa de fim de tarde e aquele horário sem planos para noite. Ela adora ficar na cidade no feriado, torce para barreiras e pontes caírem, e ninguém voltar nunca mais. Uma cidade só pra ela, um bairro, aquela rua, a sorveteria. Aquele cachorro brincando com ela. E eu só pra ela. No elevador, quantas saudades daqueles segundos de silêncio, presos na caixa blindada, vigiados por câmeras camufladas, loucos para se agarrar e, rirem, apertarem todos os botões, tirarem a roupa, escreverem ao lado do Atrasado: "Eu te amo". Saudades é amor. Não se tem saudades do que não se ama. Ou amou.


O amor não acaba, porque eu tenho saudades, me lembro dela todos os dias, me preocupo com ela, torço por ela, e se sonho com ela, meu dia está feito. O amor não pode acabar, porque sem ela ou sem a esperança de revê-la, até a chance de tê-la de volta, minha guerra não tem fim. Ela é uma trégua na minha guerra pessoal contra minha paixão por ela. Amá-la me faz bem. Mesmo que ela não me ame. Amo amá-la. Continuei amando desde o dia em que terminou. Passei meses amando como se não tivesse acabado. Ficaria anos amando mesmo se não tivesse voltado.


O amor não acaba, muda. O amor não será, é. O amor está. Foi. Nas tantas músicas que ouvimos juntos, que dançamos colados, trilhas das noites frias em que você sentava em mim nua, enquanto meus braços imobilizavam os seus. Amor. O não-amor é vazio. O antiamor também é amor. Nas minhas mãos frias aquecidas pelas suas. Eu te amava quando você respirava no meu ouvido. Amo-te, amo-te, amo-te. Suor naquele instante secreto, quando sua boca incha, seus olhos apertam, suas unhas me arranham e você diz, com tanta verdade: Eu te amo!


O amor acabou quando você se foi? Fala a verdade... Vocês sentiu saudades das minhas paredes, das cores das minhas camisas, da umidade da minha boca, do cheirinho do meu travesseiro, da minha torrada com mel, do meu endereço, das tantas noites pelados assistindo á televisão, dos vinhos entornados no lençol e pelo chão, de café da manhã com jornal, do lanche improvisado, você sentiu falta de atravessar a avenida comigo de mãos dadas, de correr da chuva, de eu te indicar aquele livro, do cinema gelado em que vimos aquele filme sem fim, torcendo para acabar logo e ficarmos a sós, você sentiu falta da minha risada, da minha inconveniência, da minha mancha, de eu ser seu amante, seu noivo, seu amigo e marido, dos meus olhos te espiando, dos meus dentes te mordendo e mastigando, ficou tanto tempo longe de mim e pensou em nós todas as madrugadas, especialmente bêbada e louca, queria me ligar, me escrever, meu cheiro aparecia de repente, meu vulto estava sempre ali presente, acaba? Diz que acaba.


Como acaba? Não acaba. Repete. Falei. Não acaba. Pode virar amor não correspondido. Pode ser amor com ódio, paixão com amor. Pode vir em muitas embalagens e tamanhos. Só tenho uma certeza. Tem o amor e o nada. Ah, mais uma coisa. Antes que eu me esqueça. O amor não acaba. Vira. Sorry. Se acabar, não é amor."

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Mais um do Marcelo Rubens Paiva.



Atordoado.Foi como ele ficou, porque ela saiu da sala de embarque e o cumprimentou com um beijo no rosto. 6 anos. Beijo no rosto? Que afronta. Que falta de cuidado. Que bandeira. Não comentaram o assunto. Mas o olhar dela não procurou o carro, e sim o olhar dele. Portanto, é logico que ela ta,bém se surpreendeu com o gesto abusadamente burocrático. Há uma semana viajando. O maridinho de 6 anos a busca no aeroporto. De surpresa. Instala-se na calçada. O carro em frente, como risco de ser multado. E como ela agradece? Com um beijo no rosto, seco e inaudível.

Caminharam para o carro rsumindo as prioridades: "Não esqueceu de nada?" "Pagou o IPVA atrasado?" Tem bateria no seu celular?" "Ligou para o seu pai no aniversário dele?"

Desceram a Avenida 23 em silêncio. Há três meses, eles mal se encostavam. Ela sempre dormia antes. Desde quando se conheceram há 6 anos, ela dormia antes do dia seguinte. Ultimamente, ele entrava no quarto, e ela dormia de costas, com a cabeça longe.

No começo do namoro, iam para a cama com uma regularidade qe irritava os amigos, quando as comparações eram trazidas à mesa. Nas viagens para a casa alugada na praia com amigos, causava admiração constatar que os novos namorados não saíam do quarto. Nem para o pôquer com feijão.

Claro que com o casamento a frequência caiu. às vezes, uma sema sem trepar. Cíclico: havia semanas que dormiam em camas separadas, férias que ficavam colados como um cometa e a cauda. Então, as estatísticas atolarm num pânico perigoso : duas vezes por mês; uma vez por mês. A quantidade refete a qualidade de um casamento? Qual éo ideal, se é qie existe?

Quando os encontros passaram para a média de uma vez por mês, o alarme tocou. Não conversaram sobre isso. Ela era a mesma linda sedutora de ante. Daquelas que envelhecem com metamorfismo: sai a casca juvenil, e se liberta a mulher perfeita. Ele até emagreceu, depois de muito esforço, e começar a nadar junto com ela. Por que não transavam mais, se eram os mesmo que se apaixonaram no primeiro encontro? Porqe não eram mais os mesmos.

Só na Avenida Brasil, voltou a falar. Ele perguntou como foi a viagem. Demorou tudo isso, porque temia a resposta. Se ela dissesse "foi ótima", estava esclarecido o beijo no rosto; foi muito melhor do que ficar com você, naquela nossa rotina abafada, na nossa casa em que nem trepamos mais, até encontrei um pescador meio índio que me virou literalmente do avesso. Mas ela não respondeu e acendeu um cigarro, olhou através da janela. Ele se irritou. A sua indiferença ante o tornado de pensamentos e ódio e medo e indecisões que se formava assustava. E pois ela fumava.

Para irritá-lo. Ele parara de fumar seguindo um pacto de ela o seguir, mas ela, que fumava só eventualmente, e não como ele, viciado compulsivo, não cumpriu o combinado. De raiva, ele ligou o rádio na estação de rock e aumentou no punk do Ramones, que dançou tanto na adolescência: We Are Happy Family. E cantou:
"We're a happy family, me mom and daddy, siting here in Queens, eating refried beans..."
"Abaixa um pouco", ela pediu.
"Por quê?"
"Abaixa..." ela adocicou a voz.

Obedeceu. Sempre a obedecia, quando ela implorava docemente, Ela deve estar pensando no nativo deitado sobre ela, percando por ela, subindo em coqueiros para trazer um coco fresco, cabulando os seminários que sua empresa organizou, dançando lambada, enquanto o otário aqui...Na Avenida 9 de Julho, ele resolveu jogar duro:

"Não vai falar como foi a viagem?"
"Cansativa. Desculpe. Estou exausta."

Ele esperava qualquer resposta. Menos cansativa. Cansativo é ficar neste inferno de cidade do caos. Nonguém se cansa num resort numa ilha baiana, a anão ser que se envolva com um nativo e se canse de tanto sexo, sexo que não pratica em casa.

"Você sabe há quantos meses não transamos?" ele perguntou.
Ela assoprou a fumaça no rosto dele, jogou a bituca pela janela e comentou ligeiramente impaciente:
"Que romântico...Você ez as contas, é?"
"Fiz. Sabe?"
"Três."
"Três meses? E isso é muito ou pouco?"
"Muito."
"Você quer parar num hotel agora? Tem um monte por auqi no Jardins."
"A questão não é essa."
"E qual é?"
"Por que não 'transamos' mais como antigamente?"
"Não sei. Por quê?"
Devolver a pergunta foi a resposta mais eficaz. Isso mesmo, por quê? Afinal, não era só dela a culpa, se é que a culpa seja a conduta a ser empregada.
"Por que casais param de trepar?", ele perguntou.
"Não sei. Por quê?"
"Tesão acaba."
"Acaba?"
"Acabou?"
"Não. Sei lá. Acho que não. Acabou?"

O carro parou no congestionameno. Ele pegou um cigarro da bolsa dela. Acendeu no acendedor do carro. E disse, sereno: "Acho que o casamento acabou. E o tesão foi consequência. Tudo o que tinha de bom ficou no passado, Por isso, a gente não transa mais. O presente é só 'quem paga o IPVA', 'ligou para o seu pai?'. Rotina,"
"Você quer se separar?"
Ele tragou e a imitou, devolvendo a pergunta:
"Você quer?"
"Porque a gente não 'mete' mais."
"Não é um bom motivo?"
"É. Que chato. Acabar um casamento pot causa de sexo."
"Da falta de", ele corrigiu.
"Sem sexo não dá, né?"
"É um sintoma. O primeiro que aparece. De que as coisas não andam tão bem."
"E se as coisas não andam bem, é melhor parar."
"É. Acho que é. Não sei. É?"

Embicou na garagem. Oportão se abriu. Entrou com o caro em marcha lenta, até encontrar uma vaga no final, no canto da lâmpada queimada há dias.
"Não pediu pra trocarem esta lâmpada?", ela comentou.

Ele desligou o carro. Olhou para ela. Escorria uma lágrima do rosto dela. Ele a abraçou. Beijaram-se. Ela desatou o cinto e se sentou no colo dele.
Logo, ele inclinará o encosto do banco para trás.


Texto de Marcelo Rubens Paiva, retirado do seu blog no Estadão.




domingo, 17 de maio de 2009

Quem Ama Reclama - Fim

Texto de Marcelo Rubens Paiva, publicado no Estadão. (ótimo!)



Diante do marido, Maria enumerou as razões, todas falsas. Não contaria que partia, pois descobriu há exatamente 12 horas o homem da sua vida, Mauro, aquele de quem sempre falavam ''o seu número''. Enfiou o essencial numa mochila verde e se mudou para a mãe.

No dia seguinte, ele estava na sala, esperando. Ela se sentiu invadida, pegou a mochila e foi para a casa da melhor amiga, aquela que o viu com outra. Deixou genro e sogra falando sozinhos. Quando o viu no outro dia no retrovisor a seguindo, acelerou, escolheu ruas vicinais, desceu até o estacionamento do shopping, parou numa vaga, subiu dois andares pelas escadas, saiu e entrou num táxi.

Chegou pontualmente no apartamento de Mauro, que abriu a porta de banho tomado. A casa cheirava a xampu. Se beijaram na porta. As pernas dela tremeram. Ele sorriu: ''Que linda.'' Então, tocou o interfone. Ele logo adivinhou problemas. Ela sentou no canto do sofá e acariciou o labrador. O porteiro informou. O marido dessa senhora que acabou de subir está na portaria. ''Ele está calmo'', foi lacônico. Mauro olhou para Maria e, procurando disfarçar a apreensão, avisou: ''Seu marido está aí.''

Ela levantou num pulo, fez cara de ''paciência-tem-limite''. Contou que saiu de casa há dois dias, que ele não se conformava e hoje a seguiu. Mauro, para organizar a confusão e surpresa, resolveu ser prático: ''Você quer que eu o dispense?'' Ela balançou a cabeça que sim.

Claro que Mauro não foi pessoalmente. Nem passou pela sua cabeça duelar por alguém que mal conhecia, aquela de quem sempre falavam ''o seu número''. Pediu para o porteiro dispensar com educação o requerente, e chamar seguranças dos prédios vizinhos, se as circunstâncias assim exigissem.

Ficaram Mauro e Maria em silêncio. Momento ideal para ele se alongar na habitual tarefa de abrir um vinho, girando o saca-rolhas com mais precisão, cheirando a mesma, examinando a bebida contra a luz, enquanto calculava o que fazer, se a situação fugisse do controle. Ela foi para a varanda, checar a vista, o céu e a consciência.

Ele checou as portas trancadas. Aumentou o som e serviu o vinho.

Mauro desceu na manhã seguinte, para comprar pães e queijos. Perguntou ao porteiro se tudo bem. Ele disse que o rapaz chorou, coitado, confessou que não fez nada, que não merecia, que boatos de uma traição chegaram ao ouvido dela, tudo falso, que aquelas amigas o detestavam, faziam propaganda contra, que ele a amava, iam ter filhos. ''Deu pena, seu Mauro. Eu disse: o senhor é jovem e bonito, tem a vida pela frente. Ele foi embora 15 minutos depois. Cabisbaixo. Chorando.

''Ele agradeceu envergonhado. Fez as compras na padoca da esquina. Temeu ser atacado pelas costas. Pior que não sabia quem era, nem como. Mas, como o adversário não forçara nada no dia anterior, era provavelmente da (e pela a) paz, e nesta altura, indicam os manuais do atraiçoado, se conformava sussurrando no gargalo de um destilado.

Mauro subiu com as compras, levou o café da manhã para ela na cama. Ficaram quatro dias sem sair de lá. Minto. Ela desceu até o térreo, pegar a mochila verde que a amiga deixou na portaria, e subiu voando, vestindo só a velha camiseta do colégio dele.

Ficaram grudados na cama e na tevê, acompanhando a preparação do Corinthians para a série B, imaginando como seria divertido se ele ganhasse a Copa do Brasil, com direito à Libertadores, ganhasse a segundona, mas preferisse continuar nela, para jogar contra times exóticos, que têm patrocinadores na camisa como PittsBurg, rede nordestina de lanchonetes, Universidade Potiguar, Ótica Alagoas, e jogar num estádio chamado Frasqueirão, em Natal.

Sim, torcem para o mesmo time. Discutiram cada contratação. Apoiaram a camisa roxa, que encomendaram na primeira oportunidade. E não é que ela sabe de cor ''aqui tem um bando de louco, louco por ti Corinthians, pra aqueles que achas que é pouco...''

No Rio, são Flamengo. Gostam do Milan, e não acreditam que Kaká seja esse santo propagado. Gostam do Cristiano Ronaldo. Concordam que o Leão tem um gênio difícil, mas é um grande técnico, e que o melhor técnico o País é do Luxa. E acham ridícula a caça a jogadores com bons dribles, craques como Valdívia e Michael, agora no Coritiba. Sim, ela adora futebol!

Sugerir um cineminha? Que nada. Podiam baixar qualquer filme pelo bittorrent, legendá-lo e assistir na nova tevê de alta definição dele. Ambos preferem filminho na cama.

Maria e Mauro se deram bem em tudo. Assustadoramente perfeita a convivência. Acordavam no mesmo horário, trabalhavam com seus laptops sem saírem de casa. Almoçavam a mesma refeição, no mesmo horário. Tudo se encaixava, tudo era simples demais, tudo era feito em acordo, nada de negociações traumáticas. Tomavam banhos juntos. Cozinhavam juntos. Gostavam da mesma safra de vinhos, das mesmas frutas, do mesmo sabor de Halls.

Em dias, assumiram a relação. Saíram da toca. Enfrentaram a desconfiança da família e amigos. Todos concordaram que ele nunca esteve tão feliz, e ela, completa.

O tempo voou. Fizeram a primeira viagem juntos, Venezuela, que ambos desconheciam. Como dois esquerdistas convictos, amaram. Tiveram a mesma opinião sobre o regime polêmico. Não perderam o bom humor nem quando ele perdeu os passaportes, e foi um rolo a viagem de volta.

O casal nunca discutia. Nunca discordava. Um nunca criticava o outro publicamente. Um dava forças para as esquisitices do outro. As piadas e brincadeiras se encaixavam, só eles riam.

Se ficassem em casa, era a melhor coisa do mundo, se acordassem depois do meio-dia, era a melhor coisa do mundo, se saíssem para comer, sempre acertavam o que o outro tinha em mente. Se fossem dançar, aplaudiam ou renegavam o mesmo DJ.

Você já sacou aonde isso vai dar. Parece óbvio, inexplicavelmente dolorido.

Foi num aniversário de namoro que ela notou que algo a incomodava. Chamemos de o tédio da virtude, perfeição que corrói. Ela nunca dizia o que estava errado. E ele não era adivinho.

Resultado. Ela voltou para ex-marido, que nunca lhe deu estabilidade, em quem nunca confiou. Ele procurou a mediquinha do ABC, que não o perdoou pelo sumiço.

Uma lição simples e precisa se extrai desse caso de amor malsucedido. Sem conflito não há história.

Quem Ama Reclama - 2ª Parte.

Artigo de Marcelo Rubens Paiva


Duas da manhã. O restaurante vazio perdeu a identidade. O último garçom apagava as poucas velas. Os amigos pediram a saideira. Não queriam que aquela madrugada acabasse. Elas aceitaram esticar numa boate.

Mauro e Maria, que todos diziam feitos um para o outro, desligaram os celulares. Ela rompia o acordo recentemente estipulado com o marido boêmio: sempre chegar antes da uma. Ele deixava uma médica do ABC esperando com frio e um estetoscópio na cama.

Maria sabia que o cara era um solto no mundo convicto. Mauro, que ela era casada com um nada a ver. E não estava nada feliz, depois que viram o marido com outra.

Duas consciências pesadas? Não muito. Especialmente quando revelaram as incríveis coincidências de neuroses e manias entre pessoas que acabaram de se conhecer. Especialmente quando ela falou algo com o que ele concordava. Especialmente quando ele esbarrou sem querer na mão dela, para experimentar o vinho. Ao devolver a taça, ela reparou na impressão labial dele na borda do cristal e sutilmente fez questão de encostar os seus lábios na marca. Ele notou. Sorriu, como se já conhecesse todos os truques. Ela disfarçou sem graça; não era para ele ver. Ele olhou seus lábios. Ela gelou de repente. Meu Deus, o que está acontecendo?!, se perguntaram.

''Bora?''

Os amigos apressaram. Pagaram a conta. Levaram duas garrafas de vinho.

Na calçada, listaram as opções: Milo, Clash, Vegas, D''Edge, Inferno, Berlim, CB, Love Story, Kilt, Vagão, Torre do Zero a Zero, 13, Studio SP, Astronete.

''A Lôca...'', alguém sugeriu.

Riram. A Lôca, inferninho surpreendente. O único em que não se consegue prever o que vai rolar, e como pode acabar.

''Já usaram a ponte?'', Mauro perguntou.

''Não. Vamos?'', Maria empolgada gostou da sugestão.

A ponte recém-inaugurada, toda iluminada, com cabos que lembram uma garfada de espaguete, já apelidada de ''estilingão''.

Pararam o carro no acostamento, com o pisca-alerta ligado. ''Vem, não tem perigo'', Mauro puxou Maria. Sentaram no parapeito. Tomaram vinho sobre o Rio Pinheiro fétido. O vento frio ressonava nos cabos. Era como se uma orquestra afinasse antes do concerto. Brindaram a urbanidade tóxica. Só quem mora na cidade vê beleza nas iluminadas intervenções de concreto que aparentemente ligam o nada ao lugar nenhum. ''Parece um sutiã'', ela disse.

Numa Lôca apertada, Maria esbarrou em Mauro. Que respeitosamente a defendeu do empurra-empurra. Dançaram. Se perderam dos amigos. ''Estou indo embora'', ele disse. ''Fica mais um pouco'', ela disse. Mal se escutavam. Ele entendeu o recado. Passou os braços pela cintura dela. Cercados por desconhecidos. ''Vem comigo'', ele disse. Ela colou o seu corpo no dele. ''Não posso'', ela disse. Tinham a mesma altura. Tinham ambos o rosto claro. Tinham ambos olhos pretos, cabelos pretos, lisos. Estavam ambos de azul-marinho. ''Pode sim'', ele disse. E parecia que se conheceram há uma eternidade. ''Em qual mês você nasceu?'', ela perguntou. ''Ótimo'', ele respondeu. E a levou.

Amanhecia, e escutavam Lhasa De Sela no sofá da sala do apartamento dele. O Labrador dourado que os acompanhava era do tamanho do labrador preto dela. Liam o mesmo livro, ela descobriu (Homem Comum). Na varanda, um pé de mexerica era visitado por maritacas. No canto, um canteiro com ervas, chás. Foram pra cama só depois de ela experimentar o seu capim-limão.

Meio-dia. Ela entrou no último carro do metrô. Sentou na última fileira. Ou primeira, quando ele voltar. Triste? Tensa? Emocionada. Encantada. Assustada. Encorajada: sair da trincheira e ir adiante, sob fogo cruzado.

Um encontro desse aparece uma vez na vida. Aparece para se repensá-la e recalcular o plano de vôo. Para derrubar convicções. Seria uma injustiça deixá-lo entre as boas lembranças. A vida é uma só, Maria sabe muito bem. Se algo novo tem a força de apagar decepções que não são esquecidas, é preciso acreditar nas surpresas casuais. É preciso acreditar na evolução.

Abriu o livro que levava na bolsa. Exatamente na cena em que Phoebe, a mulher do protagonista, descobre a amante. ''A mentira é uma maneira vulgar e desprezível de controlar a outra pessoa'', ela diz.

Chegou em casa. O marido estava no sofá, com o labrador preto nos pés. Nem o cão fez festa. Não precisou de meia palavra, já que tudo se revelou. Mentir seria humilhá-lo, pensou. Sim, dormi com outro cara, estou a fim dele. Queria que o marido abaixasse a cabeça e, como um potro vencido por um garanhão que o surrou, deixasse o pasto para curar suas feridas na solidão do vexame. Mas surpreendentemente ele começou a chorar, depois a esbravejar, depois a agredir, depois a xingar.

Ela percebeu que não seria fácil e, pior, que ela é quem teria de partir, se quisesse resumir o presumível.

Com alteridade, enquanto ela enumerava as razões, evitando contar que descobriu o homem da sua vida em 12 horas, ele se dizia injustiçado por um pérfido boato que a traíra. Ela não se alongou. Pegou o essencial, enfiou numa mochila verde e foi para a casa da mãe.

No dia seguinte, ele estava na sala com a mãe, esperando. Mais queixas, pedidos de desculpas, acusações. Mais promessas de um futuro melhor: ''Deixa eu mostrar que sou alguém melhor.'' As confusões se alastraram.

Ela? Pena, muita. Por isso, pegou a mochila verde e foi para a casa da amiga, aquela que o viu com outra. Deixou genro e sogra, indignados. Falando sozinhos.

Outro dia. Ela ficou louca quando olhou no retrovisor e viu o marido a seguindo de carro. Justamente na noite em que reencontraria Mauro. Moleque, pensou! Acelerou, e o moleque a imitou.

Entrou em ruas vicinais, passou faróis vermelhos, ignorou lombadas. E o insistente sem desistir. Ela decidiu parar numa praça calma. Ele parou metros atrás. Ela saiu do carro. Ele, não. Estava apenas seguindo. Não queria conversar nem nada. Ele aumentou a música que tocava no seu som: ''Eu vou tentar, mesmo que eu não ganhe nada com isso, eu preciso salvar o mundo...''

A banda que aprenderam a curtir juntos. Maria não acreditou em tamanha prepotência. Voltou para o carro e arrancou.

Entrou no shopping a toda, parou na primeira vaga, correu até as escadas rolantes, subiu a desligada - dois andares -, saiu pela entrada e pegou um táxi no primeiro ponto. É preciso apostar na felicidade.

Quem Ama Reclama

Marcelo Rubens Paiva (texto publicado no Estadão)



Mauro já tinha ouvido falar dela.

Os amigos diziam: ''É o seu número. Você tem que conhecer.'' Ignorava, soltando a mesma máxima: ''Mulher não é sapato.''

Tocava a sua vida de solteiro com uma certeza que incomodava. Curtia cada minuto da opção escolhida, considerada por ele o extremo de liberdade, e por outros, de intolerância. Apenas poucos amigos infelizes no casamento invejavam.

Ao contrário do que propunham, ele queria nada a sério com alguém de um mundo oposto: uma garota que morasse do outro lado da cidade, como uma operária de Osasco, ou uma cientista maluca da UNB; uma adolescente com aparelho nos dentes, que mascasse chicletes sabor framboesa; a amiga na menopausa da mãe; a garçonete hippie de uma boate punk.

Por que não uma policial militar de patente baixa? Talvez uma africana aluna de intercâmbio da USP, ou uma boliviana bolivariana e chavista, ou uma ex-guerrilheira chilena? Uma contrabandista de tênis piratas, chinesa especialista em comida baiana? Quem sabe a prima distante, vascaína fanática, esquizofrênica paranóica, sonâmbula tarada, obesa, obcecada por Roberto Carlos? Uma fã de cinema chileno, bêbada da Vila Carrão?

Já que a solidão não o afetava, ele gostava de estar com muitas, o que é não estar com ninguém, diziam os amigos, pois não se estabelecem vínculos. Mauro não pretendia aprofundar intimidades, repartir frustrações e medos.

Um sujeito como Mauro vive apenas o trailer da relação. Quando se amanhece junto, há a trama com ações e conflitos - e é obrigado a falar de sonhos da noite anterior -, ele já pensa na desculpa que dará, para que o amanhã seja sempre outra sessão.
Maria não estava bem no casamento. Foi um pesadelo quando as duas amigas contaram que viram o marido boêmio com outra. Mas era ele mesmo? Uma tinha certeza, a outra, não. Maria reclamou, chorou. Bem que a alertaram: ''Ele não presta, sai fora, você merece coisa melhor.''


Como para ela o homem da sua vida não era ''coisa'', ouviu-o negar. Ela conhecia as fraquezas humanas. Tolerante, e sem 100% de convicção, perdoou, sem nunca ter perdoado de fato, se é que você entende.

Estabeleceu regras. Ele nunca mais chegaria depois da 1 hora. Beberia apenas socialmente. Acordariam juntos de manhã, para correr no Villa-Lobos. Viajariam nos fins de semana para pousadas que ela escolheria. E, sim, mudariam os armários da cozinha, promessa de casamento nunca cumprida. Ele poderia jogar a pelada de terça-feira, dia em que ela sairia para beber com as duas amigas. Mas ambos, antes da 1 hora, em casa!

Claro que ela sabia muito bem que um casamento não se sustenta por estatutos, obrigações difíceis de serem realizadas, e que a confiança foi arranhada. Claro que Maria sabia que novos armários na cozinha não bastavam para limpar uma mancha do passado. Mas era preciso acreditar na evolução. O homem era dela, ela nunca teve certeza da traição, iria continuar com o que se propôs quando se juntaram.

Terça-feira. No bar. Com as duas amigas, Maria viu Mauro, o cara que diziam: ''O seu número.'' Elas apontaram, é aquele do canto, sentado na última mesa, com dois amigos. Pareciam entorpecidos, pois gargalhavam. Bebiam dry martini. Maria acha ridículo homem que bebe dry martini, bebida de tia. Ela observou espantada: ''É esse aí?!''

No começo, não sentiu nada por Mauro. Mas as amigas não paravam de falar quanto era gostoso, charmoso, divertido, interessante, ligeiramente arrogante, desleixado, desarrumado, desencanado. Exatamente do jeito que ela gostava.

Então, Maria se levantou. As amigas riram, tímidas. Esticou as calças, jogou os cabelos pra trás e foi ao banheiro. Ficou de frente pra ele, que nem reparou nela, apesar dos dois amigos a olharem de baixo pra cima e a cumprimentarem.

Mauro estranhou os amigos pararem de rir. Estava entretido com um torpedo que acabara de chegar. O que foi? É ela. Ela está aqui. Quem? Ela, Maria, o seu número.

Odiava tal insistência. Acabara de receber um torpedo irresistível, uma dermatologista de Santo André convidando-o para uma noite completa: consulta na cama.

Maria voltou do banheiro. Eles se arrumaram na cadeira. Interromperam. Apresentaram Mauro. Os dois se deram as mãos sem convicção. Ela o achou um pouco blasé. Ele achou a mão dela fina demais. Ela se foi, e os três olharam, a examinaram. Os amigos voltaram a falar que Maria foi feita pra ele. Tinham tudo a ver. Deviam conversar, se conhecer.

Meia-noite. O restaurante esvaziou. Os três foram se sentar com elas. Claro que deixaram o casal hipoteticamente perfeito se sentar no mesmo canto.

Foi Maria quem puxou assunto, enquanto ele recebia uma intimada da dermo: ''E aí, você vem? Estou na cama com frio.'' Ele respondeu que esperava o trânsito melhorar, e Maria achou um absurdo o cara trocar torpedos, enquanto ela tentava um diálogo.

Mas foi Mauro abrir a boca, para ela sentir uma tremedeira nas pernas. Pois a sua voz rouca ressonou, e um hálito doce, alcoolizado e estranhamente perfumado a envolveu. ''Desculpe, estou sendo mal-educado, mas recebi uma mensagem, o que você disse?''

Ela ficou na dúvida entre mandá-lo plantar inhame-nambu, que dizem fazer bem para o estômago, deixar uma grana in cash, se levantar e ir pra casa encontrar o marido, com quem combinou não mais chegarem depois da 1 h, ou lhe dar a humilhante oportunidade de recuperar a atenção. Pediu outra taça de vinho. Por que tomou a segunda atitude? Porque ninguém entende os truques que o destino oferece; e a voz da inconsciência decide.

Os amigos conversavam entre eles. Maria didática retomou o assunto. Ele abriu os olhos, sorriu e falou algo com o que ela concordava. Assustador: a vida toda ela achava que só ela pensava naquilo. Encontrou um aliado. Começaram a falar. Não pararam.

Elas abriram outra garrafa de vinho. Eles continuaram no dry. Mauro e Maria trocaram opiniões semelhantes. Riam das coincidências de sentimentos, neuroses e manias. Ela olhou o relógio e pediu a Deus que fosse cedo ainda. Nada disso: uma e dez. Ela acabava de romper um pacto. Discretamente, desligou o celular e o deixou bem no fundo da bolsa. Ele fez o mesmo.

A cozinha fechou. As mesas, vazias. Restou apenas um garçom. Ficaram ainda até as 2, no maior papo. Até os três convidarem as três para irem todos dançar numa boate. Elas se olharam. Por que não?